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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sulivan & Massadas no idílico mundo das botas brancas

Texto: Débora Paixão

Pompons coloridos ao vento do ar-condicionado, um homem vestido de mosquito simula tocar uma guitarra de esponja, adolescentes coxudas dançam em volta de uma gringa fantasiada de cacique western que convida as crianças a brincarem de índio enquanto é observada por nativos perplexos, tapando suas vergonhas sob calções da Umbro.

Xuxa, Mara Maravilha e outras manequins eram a porta-vozes da febre indianista que dominou os anos oitenta. Sem poesia, métrica ou nacionalismo, mas recheado de mensagens idílicas; o resgate do índio era mais um artificio para colorir o mundo de chocolate dos programas infantis em pérolas como índio ficou sozinho/índio querer carinho/índio querer de volta a sua paz ou Tuiuiu iu iu/ Sou curumim iê iê/ Tuiuiu iu iu/ Sou curumã arauê.

Bem aventurados os que estudavam à tarde. A eles que o idílico mundo das botas brancas se desvelava sem corruptelas: naves espaciais com efeito néon, desjejum de rainha, mascotes com nomes de doença epidêmica, lições de bom mocismo para as crianças de apartamento e  lolitas de shorts em rituais satânicos subliminares. 

Faz de mim estrela, que eu já sei brilhar!
Nesse espetáculo iluminado por sóis de espuma e tinta guache, aprendíamos a suprimir as frustrações repetindo o mantra "sonhar é poder" entoado logo no café da manhã ao mastigarmos o pão velho com manteiga e sem mordomo pra nos servir; a procurar compensações pois quem não tinha genes germânicos dominantes para ser paquita podia preconizar a puberdade com os dorsos nus e sem pêlos dos paquitos e a vislumbrar príncipes encantados em espécimes improváveis como o desastrado entregador de pizza encorajado por uma skatista de doze anos de Lua de Cristal.
Não importa se falta inteligência, sorte e Marlene Mattos em sua vida; com fé no cara lá de cima era possível realizar todos os sonhos desde mandar beijos pra mamãe e papai em rede nacional até enfeitar o céu com as cores do amor. Contudo, não era somente com sertralina, mantras otimistas, merchandising e "xuxes" que o mundo da alegria inesgotável se sustentava: refrões grudentos eram essenciais na tarefa de espalhar a boa nova e a dupla de compositores Michael Sullivan e Paulo Massadas eram os principais apóstolos.

Muito além de ilariês, Sullivan e Massadas eram os hitmakers do cancioneiro infantil ao produzirem o grupo Trem da Alegria. Os versos da dupla abrangiam todas as fases da infância e pré-adolescência desde mundos fantásticos e jogos de linguagem (É de Chocolate, Uni Duni Tê), descoberta do amor (Pique-pega esconde Pra ver se cola), reverência a ídolos fora de atividade, fenômeno típico da  puberdade (O Atleta do Século) e anseio por independência na surpreendente Certo ou Errado de Patrícia Marx em carreira solo (Quem não pula o muro/ não aprende a se arriscar/ .../Deixa a vida me ensinar/Eu vou provar/Pra saber escolher).


Sonho encantado onde está você?

No universo das apresentadoras infatilóides, as letras da dupla foram revestidas com clichês de auto-ajuda (Lua  de Cristal), reverência à "rainha" (I Love you, Xuxu), otimismo inebriante (Arco Íris) e mensagens baratas de conscientização somadas ao canto claudicante de Xuxa. Mesmo assim, os mestres Sullivan e Massadas mantinham a excelência lançando mão de solos de guitarra e linhas de teclados lisérgicas, colocando um sabor agridoce neste reino hiperglicêmico.

Com explosões matinais de alegria, o mundo das botas brancas desfraldava a bandeira da realização implacável dos sonhos sem a hipótese de que o algodão-doce poderia virar fumaça. Xuxa é o ícone de uma geração que encara a felicidade como um direito inalienável, onde o sofrimento é um erro ou sinal de doença e as intempéries podem destruir a noção de felicidade.

1.     Certo ou Errado - Patrícia Marx
2.     Festa do Amor - Patrícia Marx
3.     Sonho de Amor - Patrícia Marx
4.     É de Chocolate - Trem da Alegria
5.     He-man - Trem da Alegria
6.     Iô-iô - Trem da Alegria
7.     Pique-pega escone - Trem da Alegria
8.     Pra ver se cola - Trem da Alegria
9.     Thundercats - Trem da Alegria
10. Tic tac do amor - Trem da Alegria
11. Uni duni tê - Trem da Alegria
12. Arco íris - Xuxa
13. Brincar de índio - Xuxa
14. I love you Xuxu - Xuxa
15. Lua de Cristal - Xuxa
16. Parabéns da Xuxa - Xuxa

Texto da colaboradora Débora Paixão

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Requiem para um Sonho (Requiem for a Dream)



Direção: Darren Aronofsky (o cara que fez ´´pi´´ não achei o simbolo aqui no teclado, meu!)Roteiro: Darren Aronofsky, baseado em livro de Hubert Selby Jr. ElencoEllen Burstyn (a mãe da mina do exorcista!)Jared Leto (Alexandre), Jennifer Conelly (Água Negra, Uma mente Brilhante)BREVE RELATO DE COMO CONHECI ´´REQUIEM PARA UM SONHO´´:(PARTE1): Era mais uma tarde ociosa de verão, dessas que o sofá gruda nas costas, eu e Pomba fomos na superlocadora do chinês e pegamos essa pérola pelo título mais que curioso. Eu estava bem, nem podre de tristeza, nem transbordando de alegria, era só uma tarde quente de janeiro. .....SINOPSE: Três jovens viciados (Jared Leto, Marlon Wayans, Jennifer Connelly) em heroína resolvem investir num negócio próprio. Ao mesmo tempo a mãe de um deles (Ellen Burstyn), que tem como principal companhia a televisão, recebe um convite para participar de seu programa favorito.....Drogas, álcool, violência gratuita: vícios. Vícios pertencentes a um mundo distante do nosso, que não cabem em nosso cotidiano de tv´s de plasma, videolocadoras caras, mensalidade de faculdade, expectativas para a Copa do Mundo. Coisa de vileiros ou milionários. ´´Requiem para um sonho´´ fala de vícios, mas não aponta culpados. Não foi a sociedade, a inconstância do Seguro Social, a truculência da polícia nem um bairro dividido entre bons e maus que corrompeu os personagens. Sonho. Essa palavrinha que as Paquitas me ensinaram a jamais desistir de alcança-la. Tão bonita na boca das criancinhas, mas piegas se sai da goela de um adolescente. Pois adultos não sonham, perseguem objetivos. ´´Réquiem para um Sonho´´ é fiel a seu titulo, e vai além mostrando o avesso do sonho, a inaptidão humana em ser deus do próprio destino.Darren Aronofsky mostra uma Numa Nova York distante do arvoredo do Central Park e dos cafés de Manhatann (coisas que só conheço por meio dois filmes mesmo), é um Brooklin diferente, onde não aparecem crianças se refrescando nos hidrantes, nem traficantes com carros possantes tocando rap a todo volume. Em apartamentos minúsculos iluminados pelas televisões todos os dias parecem segunda-feira.Ver televisão, procurar felicidade, realizar sonhos, fazer dieta, querer voltar a ser como antes... O que torna essas pequenas coisas da vida, que eu, você, tua mãe e todo o povo do prédio do lado faz, em um pesadelo tão horripilante quanto estar no meio da Paulista sob a mira dos ataques do PCC? O que transforma o desejo em obsessão fatal?´´Réquiem para um Sonho´´ me perguntou isso, só que não me deu respostas. Nos últimos 30 minutos da película há correria, pouco dialogo, muitos barulhos irritantes, angustia, sensação de taquicardia. É um filme de terror. Não, não há homens possuídos, correndo, com um machado na mão, atrás das mocinhas; nem crianças com rostos demoníacos; sobrehumanos mascarados; espíritos que se esgueiram pelos cantos mal iluminados. É um terror psicológico, tenso, onde a gente não teme a morte, e sim a vida, não, não a vida dos personagens, mas o que pode vir a ser a nossa vida.

Artigo de Débora Paixão - colaboradora do blog